Este produto vínico, cuja produção é tão relevante na Bairrada, será por nós abordado nos próximos meses, através da produção de quatro textos, que descreverão de forma sucinta as principais etapas da sua elaboração. Iniciamos esta abordagem, com uma resenha histórica relativa aos primórdios da preparação destes vinhos majestosos.
Enquadramento Histórico
Os vinhos efervescentes terão surgido do génio enológico do monges Beneditinos Franceses, mais propriamente dos da Abadia de Saint-Hilaire, na região do Languedoc, julga-se, no ano da graça de 1531.
No entanto, é habitual que se considere Dom Pérignon, monge Beneditino da Abadia de Saint Pierre de Hautvillers, em Epernay, como o grande impulsionador da produção deste tipo de bebida.
Pouco depois de ter chegado a Hautvillers, Dom Pérignon realizou um retiro na Abadia de Saint-Hilaire, tendo ai tomado contacto com o Método Ancestral de Limoux, utilizado pelos seus irmãos monges dessa Abadia, havia mais de um século. Estes haviam começado a engarrafar os vinhos brancos sem a fermentação alcoólica concluída, obtendo assim, após a conclusão daquela já em garrafa, um vinho efervescente. Isto depois de um monge ter descoberto que o vinho branco que havia cuidadosamente fechado, tinha formado acidentalmente bolhas de gás, como se uma segunda fermentação se iniciasse. Ainda hoje se produzem vinhos espumantes nesta região, destacando-se o célebre Blanquete de Limoux, uma das mais prestigiadas denominações de origem de vinhos espumantes, em França e no mundo.
Após esta estada nesta Abadia da sua congregação e, uma vez regressado à sua Abadia em Epernay - Champagne, Dom Pérignon iniciou em 1670, uma "revolução" na produção dos vinhos da sua região de origem, sendo-lhe atribuídas muitas das inovações que vieram a originar a florescente indústria de vinhos de Champagne, tendo concretamente iniciado:
- os procedimentos de controlo da refermentação natural dos vinhos de Champagne, para o qual se baseou no "método ancestral de Limoux" (Languedoc);
- a mistura de vinhos (assemblages) de diferentes zonas da região de Champanhe, conseguindo assim um produto mais harmonioso;
- o controlo da maturação das uvas, pois um seu discípulo relata que: "Dom Pérignon não provava as uvas nas vinhas, ainda que lá se deslocasse todos os dias com o aproximar da maturidade. Recebia amostras de uvas das vinhas que destinava aos vinhos de primeira qualidade e deixava-as passar a noite ao ar, sobre a sua janela. Na manhã seguinte provava-as, tendo em conta as condições do ano - precoce, tardio, frio ou pluvioso - e o facto de as vinhas estarem bem ou mal providas de folhas. Tudo isto lhe indicava as regras para a composição dos seus vinhos mais distintos";
- prensagem muito suave das castas, sobretudo tintas, que predominavam e predominam em Champagne, obtendo assim um sumo de uva quase incolor;
- a introdução de garrafas inglesas de vidro mais espesso e resistentes, para suportarem a pressão da segunda fermentação em garrafa;
- a introdução das revolucionárias rolhas de cortiça, que observou nas garrafas de monges Espanhóis em romaria à sua Abadia, que vieram substituir as de fio de cânhamo;
- a escavação de profundas adegas, hoje galerias com vários quilómetros de extensão e usadas por todos os produtores, para permitir o repouso e envelhecimento do champanhe a uma temperatura constante.
A razão pela qual Limoux não ficou referenciada historicamente como a Região mãe dos Vinhos Efervescentes, terá certamente relação com o facto de lá não ter havido um pai da descoberta, ao que acresce ainda outro facto relevante, em Saint-Hilaire não houve um Dom Grossard, o último sucessor de Dom Pérignon em Hautvillers antes da revolução Francesa e, o grande responsável da criação do mito de Dom Pérignon e do Champagne.
Em Portugal, as primeiras experiências de produção de vinhos espumantes terão ocorrido na região do Douro, mais concretamente na casa Forrester, ainda antes de 1860. Há ainda relatos de que terão sido elaborados vinhos espumantes em Castelo de Vide, por volta de 1885, que não tiveram certamente continuidade, pois não há referências posteriores.
No entanto, as experiências mais frutíferas, foram as levadas a cabo em 1890, pelo Eng. Tavares da Silva, na Escola Prática de Viticultura e Pomologia da Bairrada, actual Estação Vitivinícola da Bairrada. Os primeiros ensaios aí realizados, levaram à instalação da primeira empresa Bairradina de Espumantes, a Associação Vinícola da Bairrada, da qual eram sócios para além de Tavares da Silva, Justino Sampaio Alegre e Maria Emília Cancela Seabra, Esposa de José Luciano de Castro, que em 14 de Janeiro de 1890 concluíra a sua primeira Presidência do Conselho de Ministros. No mesmo ano, iniciou-se a elaboração de vinhos espumantes na Real Companhia do Norte.
Em 1898, começou a produção destes vinhos em Lamego, fruto do espirito de iniciativa do Comendador José Teixeira Rebelo Júnior.
Desde lá até aos nossos dias, duas regiões vieram a afirmar-se como as principais produtoras: a Bairrada e Lamego, elaborando-se hoje, no entanto, vinhos espumantes na quase totalidade das regiões vitivinícolas Portuguesas. Em 1991, a Bairrada viria a ser a primeira denominação de origem Portuguesa de Vinhos Espumantes.