A região da Bairrada está historicamente ligada ao cultivo da vinha. Isso nos é atestado por documentos já com muitos séculos, anteriores mesmo à fundação da nacionalidade, que comprovam a importância de tal atividade na vida das pessoas, das instituições e da região. Importância que se manteve ao longo dos tempos, que fez com que ela resistisse a todas as vicissitudes inerentes à evolução do País e que perdurasse até aos dias de hoje.
É obvio que também muita coisa mudou, tanto na viticultura, como na vinicultura, assim como mudaram os gostos das pessoas, os mercados e as regras por que se rege o setor.
A Bairrada Vitivinícola tem vindo a fazer o seu esforço de adaptação e disso tem dado provas. Adaptação inevitável, tanto mais que os mercados deixaram de ser regionais ou nacionais, para serem abertos, sem fronteiras, onde a agressividade da concorrência é evidente, como o demonstram os métodos e meios que utiliza, bem estudados e bem suportados financeiramente.
Esse esforço de adaptação não pode parar, porque o mundo também não pára. Vinhos com novos perfis vão continuar a surgir, ora porque é necessário apresentar produtos diferentes dos concorrentes e que possam acrescentar valor, ora porque os consumidores simplesmente se vão desinteressando pelo que é demasiado vulgar, já muito visto, usado ou desatualizado.
Há mais de um século, há cento e vinte anos mais precisamente, o Eng.º José Maria Tavares da Silva, depois de ter estudado as castas e as carateríticas da nossa Região da Bairrada, teve o génio pioneiro de iniciar a produção industrial de espumantes naturais em Anadia, um produto inovador na região e praticamente no País.
Durante largos anos a Bairrada foi um expoente na produção de vinhos espumantes, onde ainda mantém a liderança em termos quantitativos, apesar de o mercado estar em crescimento e de hoje já se prepararem bons e cada vez melhores espumantes do norte ao sul de Portugal.
Tal como há séculos, a Região da Bairrada continua a dispor também de boas condições edafo-climáticas para a produção de bons vinhos. Porém, a Bairrada tem, indiscutivelmente, muito boas condições para a produção de excelentes vinhos base para espumantes que podem melhorar a sustentabilidade económica do setor. Disso se apercebeu o Eng.º Tavares da Silva há mais de cento e vinte anos.
Há pois que refletir sobre esse dado. Porém, há também que fazer estudo sério sobre os espumantes que o mercado procura e prepará-los a preceito, cuidando a sua produção desde a vinha até ao produto final, pois há critérios de então que já pertencem ao passado. Impõe-se rever os perfis dos espumantes naturais da Bairrada. Impõe-se produzir espumantes naturais de elevada qualidade, renegando a vulgaridade. O nome é secundário. Só assim a Bairrada poderá aspirar continuar a ser uma referência no setor dos espumantes naturais e contribuir para a continuidade e progresso da vitivinicultura na Região.
Até porque a Bairrada dispõe de uma oferta gastronómica ímpar, de fazer inveja a muitas outras regiões e para a qual os seus vinhos, espumantes incluídos, estão particularmente destinados, apesar de uma larga franja da restauração
bairradina se esquecer dessa importante caraterística e preferir entregar-se, absurdamente, à venda de vinhos de outras procedências, por vezes altamente desapropriados, e à venda ilegal de vinhos sem rótulo, com total passividade das autoridades fiscais e económicas.
Assim como o território da Bairrada que abrange mais de cinco concelhos, também desfruta de belas condições paisagísticas e de outros razoáveis e diversificados recursos naturais que enriquecem o pacote de oferta ao turismo dos mais diferentes segmentos, e a sua localização central e as suas acessibilidades são excelentes argumentos para captar essa área de negócio.
Mas a Bairrada tem mais ainda. Para além de História e da cultura das suas gentes e das suas capacidades de bem receber, tem também e cada vez mais espaços culturais de elevado nível, capazes de proporcionar experiências enriquecedoras, surpreendentes e cativantes dos seus visitantes.
O nosso Confrade de Honra deste ano brindou a Bairrada com um desses espaços, para além de pouco tempo antes ter apoiado outra iniciativa ligando a arte ao vinho.
Tão diversificado conjunto de argumentos, devidamente trabalhados e impondo-se pela superior diferença qualitativa, poderão servir de base à elaboração de um
Roteiro Enoturístíco Bairradino e fazer com que o Enoturismo seja um cluster para a economia da região e projetar o relançamento dos seus espumantes e demais vinhos.
As várias associações existentes na Bairrada também têm que ter uma palavra a dizer sobre o assunto, sob pena de se estarem a desviar dos seus objetivos estatutários e ou da sua condição de bairradinas. Assim como não podem nem devem ser marginalizadas por outras que tenham eventualmente responsabilidades mais específicas e cimeiras em matéria de promoção da Região.
Amanhã começa já hoje. Se não queremos perder mais tempo, se queremos ser eficazes e porque estamos em tempos que exigem reflexão e contenção, há que aproveitar os contributos de todos e fazer com que todos convirjam no essencial para o mesmo desígnio, porque a união faz a força e, pelo contrário, a atuação individualizada torna-se muitas vezes irrisória, inconsequente, desperdiçadora de energias e improdutiva, como é por demais sabido.
O setor da vinha e do vinho tem que ser visto e tratado como fazendo parte de um universo económico mais vasto. Só assim faz sentido. Só assim terá amanhã. Na Bairrada também, para bem do VINUM BAERRADINUM.
Bussaco, 27 de Novembro de 2010
Mensagem de Fernando Castro, no XXXII Grande Capítulo da Confraria dos Enófilos da Bairrada