A Bairrada não tem o encanto luminoso do Alentejo, esse assombro de terra rebrilhando sob uma luz que não declina nunca. A Bairrada não tem a paisagem esculpida do Douro, esse lugar de estranhamento em que o Homem e a Natureza arriscaram a perfeição. A Bairrada não tem a silhueta vertiginosa do Dão, essa exuberância de montes e vales que nenhum olhar retém plenamente. Mas a Bairrada tem um pouco da magnificência de todas estas regiões vinhateiras e, por isso, será talvez a mais portuguesa de Portugal.
O nosso país é uma faixa adelgaçada na Península Ibérica e, ao longo da sua História, só conheceu o ensejo da grandeza no horizonte do mar. Apesar de estreito e acabrunhado, Portugal fundou-se na heterogeneidade. Em 1.230 km de costa coabitam íngremes montanhas com intermináveis planícies; as cores matizam-se abruptamente entre o Minho e o Algarve; o ordenamento urbano ora é concentrado, ora é disperso; um mar imenso bordeja o país, embora seja revolto no Norte e plácido no Sul; a vegetação varia de região para região, moldando a personalidade dos lugares e a mundividência das suas gentes... Enfim, temos um país que parece uma manta de retalhos, tão variado é na sua morfologia.
E a Bairrada é também ela, à sua escala, um mosaico de cores e brilhos, texturas e silhuetas, geometrias e elementos, tal como Portugal. A nossa região espraia-se pelas serras do Caramulo e do Buçaco até à costa atlântica, embora a demarcação vinhateira cinja a Bairrada a limites legais mais reduzidos. Mas, no plano estritamente geográfico, o espaço delimitado por Aveiro, a norte, e Coimbra, a sul, compreende praia e montanha, vales e planícies, grandes manchas de vinha e exuberante vegetação serrana, mar encrespado e rios curvilíneos, zonas lacustres e terras áridas, solos argilosos e solos calcários...
Paradoxalmente, a esta heterogeneidade paisagística não correspondeu, até há pouco tempo, uma variedade de aromas, cores e sabores entre os vinhos da Bairrada. A denominação de origem limitava fortemente as castas admitidas na produção vinícola, vivendo-se uma espécie de ditadura da Baga, nos tintos, e de Arinto e Bical, nos brancos. A este dogma de fé vinhateiro somavam-se outros, como a recusa do desengaço das uvas, do controlo das temperaturas de fermentação e do uso de castas brancas para produzir espumante.
Graças a estes dogmas, habituei-me a beber vinhos tintos taninosos e adstringentes. Na iniciação aos prazeres epicuristas, ainda durante a adolescência, a boca crispava-se à passagem do vinho, o rosto ruborizava e os lábios iam ganhando um tom escarlate. Mas confesso que aprendi a gostar de vinhos robustos e ainda hoje me custa apreciar tintos demasiado amaricados. "Easy to drink", como agora se diz.
Nos vinhos brancos, o cenário era ainda pior. O sulfuroso impregnava cheiros e sabores, deixando um travo acídulo na boca e uma valente azia no estômago. Já os espumantes eram um pouco mais sofisticados, ou não fosse a Bairrada a região pioneira na produção destes vinhos pelo método natural. Ainda assim, também se encontravam muitos espumantes demasiado ásperos, com sabor a rolha e quase sem bolha. Quanto aos frisantes, nem vale a pena falar: só tinham (e têm) utilidade em caso de prisão de ventre.
Mas, na última década, a Bairrada vinhateira parece ter acordado da longa letargia em que se encontrava, muito por força das mudanças legislativas que acabaram com o monopólio das castas autóctones e pela emergência de uma nova geração de produtores com uma mentalidade bem mais arejada. Consequentemente, os vinhos da Bairrada passaram a apresentar um perfil mais moderno e mais condizente com o gosto dos consumidores, começando-se assim a fazer jus às tradições vitivinícolas da região, às enormes potencialidades das suas castas e às características singulares do seu "terroir". É hoje um prazer saborear tintos da Bairrada com os taninos afinados, muita fruta madura e a robustez de sempre; saborear brancos frutados, vigorosos e perfumados; saborear espumantes de bolha fina, boa acidez e sabores invulgares.
Agora, há que suplantar a falta de valor e reconhecimento da marca Bairrada. Pois que, não obstante o esforço da nova geração de produtores e da modernização de algumas (poucas) caves e cooperativas, a região está ainda muito distante do "goodwill" (valor resultante da reputação das empresas e seus produtos junto dos consumidores) das denominações Alentejo, Douro e Dão, só para referir as mais fortes em termos de penetração no mercado.
Mas não falta potencial na Bairrada, quer para a produção de bons vinhos e espumantes, quer para o desenvolvimento de actividades de enoturismo. Veremos se a necessidade aguça o engenho...
Ricardo Miguel Gomes
Assessor de Comunicação
Natural de Anadia