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09-06-2010
A maturação dos vinhos tintos em pipas de carvalho – apenas uma questão de enriquecimento do aroma?
Por:Eng. José Carvalheira



 

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A maturação dos vinhos tintos jovens em barricas (meias pipas) de carvalho não é uma prática enológica recente. Estes recipientes que começaram por ser usados principalmente no transporte dos vinhos, pela facilidade do seu manuseamento, rapidamente foram adaptados à sua maturação, pelos contributos favoráveis que transmitiam ao vinho, principalmente no tocante ao sabor, à cor, à limpidez e ao aroma.
No entanto, em meados do século passado, porque se começaram a identificar alguns malefícios da maturação em barricas, como os riscos de contaminações microbiológicas e, os consequentes desvios organolépticos, bem como a assunção de que esta operação tinha custos económicos muito elevados, levou a que se generalizasse a maturação em cubas inertes de grande dimensão, mesmo para alguns vinhos de bom nível.
Já nas últimas décadas do século passado, tendo-se tomado novamente em conta os grandes benefícios da maturação dos vinhos tintos em vasilhas de madeira de carvalho, associado a um maior e mais rigoroso controlo de qualidade do envelhecimento, que permitiu reduzir os riscos de permanência dos vinhos em barricas, associado a um conjuntura económica mais favorável no sector e, finalmente associado à moda global de se apresentarem vinhos com aroma de madeira, levou à massificação da maturação dos vinhos em barricas de carvalho, tendo-se mesmo generalizado esta prática a vinhos que não a suportam, nem a merecem.

Historicamente, as regiões vitícolas do mundo onde a utilização desta técnica é mais antiga e tradicional, são duas das mais importantes e prestigiadas regiões Francesas e Mundiais, Bordéus e Borgonha. Na primeira, esta prática justifica-se porque os vinhos tem uma fortíssima estrutura tanínica, e ela é usada como contributo para a domar. Os vinhos são colocados nas barricas após o terminus da fermentação maloláctica e, aí permanecem por períodos largos, por vezes superiores a um ano. Na segunda, onde a elegância é o objectivo, a maturação em barricas decorre por períodos muito mais curtos, sendo envasilhados em barricas antes da ocorrência da fermentação maloláctica e, aí permanecendo algumas semanas, extraindo-se aromas mais finos e evitando-se os taninos. Penso, que esta opção se adequa a alguns vinhos Portugueses, aos quais falta alguma estrutura fenólica.

Não faria sentido abordar esta questão, sem fazer referência às espécies de carvalho mais usadas na tanoaria, bem como uma referência à sua origem, uma vez que um dos pontos chave do sucesso da maturação em barricas é a escolha criteriosa do tipo de carvalho em função das características do vinho a maturar, o que, diga-se em abono da verdade, nem sempre é conseguido.
Actualmente, na fabricação de barricas são usadas fundamentalmente quatro espécies de carvalho: Quercus petraea, Quercus rubor, Quercus alba e Quercus farnetto. As duas primeiras encontram-se nas florestas Francesas, sendo a segunda, também, a mais vulgar nas florestas portuguesas, bem como em Limousin e, aí usada para o envelhecimento de aguardentes. A primeira é mais rica em compostos aromáticos que a segunda. A terceira, Quercus alba, é a dominante nas florestas dos Estados Unidos da América. Por comparação com as duas espécies anteriores, é mais pobre em compostos fenólicos e mais rica em substâncias aromáticas, nomeadamente lactonas e vanilina, que marcam fortemente o vinho. Se o objectivo do estágio em barrica for apenas dar aroma de madeira ao vinho, o que considero além de um erro, um objectivo demasiado minimalista, esta poderá ser uma escolha a considerar. Em termos de custos, é substancialmente mais económica que as espécies referidas anteriormente.
Em ensaio levado a cabo com a casta Baga, na Estação Vitivinícola da Bairrada, os vinhos melhoraram, significativamente, em termos de volume gustativo, quando maturados em barricas de carvalho Francês, mas pouco melhoraram quando maturados em barricas de carvalho Americano, tendo ainda, ficado muito marcados em termos aromáticos.
A Quarta espécie, Quercus farnetto, é característica das florestas do centro da Europa (Rússia, Hungria), apresentando características próximas das espécies de carvalho Francês. O seu uso na tanoaria tem vindo a subir gradualmente, por essa similaridade e, pelo seu mais baixo custo, comparativamente com o carvalho Francês.
Mas, para além do tipo de madeira usado, também o tipo de secagem e a intensidade da queima da madeira jogam um papel crucial na qualidade do vinho maturado em barricas de madeira de carvalho. A secagem pode ser natural ou artificial. A primeira é levada a cabo durante períodos sempre superiores a dois anos, ao ar livre, conduzindo a aduelas que transmitirão menor adstringência ao vinho e aromas mais finos, menos grosseiros e mais intensos. A secagem artificial é feita em estufas com ventilação forçada e temperatura condicionada de 40 a 60 ºC, sendo o tempo de secagem encurtado para períodos da ordem de um mês, incomparavelmente mais económica, mas muito menos interessante.
A queima intervém na fabricação das barricas por duas razões distintas, primeiro para permitir o curvamento das aduelas e segundo para modificar a sua estrutura e composição. Esta alteração da composição e estrutura depende da intensidade da queima, praticando-se comummente três níveis: ligeira, média ou forte. Quanto mais forte for a queima, menos taninos elágicos são cedidos ao vinho e, menos intensos são os aromas cedidos, aproximando-se de notas de torrado, fumo e chocolate.
A escolha do tipo de carvalho e da intensidade da queima permitem modular a influência organoléptica da madeira no vinho. Essa escolha deve ser criteriosa e, função quer das características do vinho, quer das nuances que queremos imprimir ao vinho.

Mas, o ponto-chave desta questão da maturação dos vinhos tintos em barricas, é a identificação dos contributos da madeira de carvalho, para a sua qualidade. Estes contributos situam-se em minha opinião a três níveis: a manutenção de um potencial de oxidação-redução favorável às reacções de combinação e polimerização, a cedência de compostos fenólicos e a cedência de compostos aromáticos.

O primeiro tem um papel crucial nas reacções entre taninos e antocianas, através do etanal, contribuindo marcantemente para a obtenção de uma coloração mais intensa e duradoura, por um lado e, por outro, para um aumento da reactividade entre as moléculas de polifenóis, o que faz com que se obtenham polifenóis mais polimerizados e consequentemente mais macios e, contribuindo para a obtenção de um sabor mais volumoso.
Quanto ao segundo contributo, os taninos elágicos são os principais compostos fenólicos cedidos ao vinho pela madeira de carvalho, sendo, no entanto, também cedidos ácidos fenóis e cumarinas. A madeira ao ceder estes compostos pode, é verdade, aumentar um pouco a sensação adstringente do vinho, por um lado, mas também é verdade que ao ceder compostos fenólicos polimerizados exógenos, maximiza e melhora os taninos condensados, aumentando o volume gustativo dos vinhos. Estes parecem-me os contributos mais interessantes.
Finalmente, porque a madeira de carvalho é rica em compostos aromáticos, nomeadamente lactonas, vanilina, eugenol, seringaldeído, etc, o vinho que com ela contacta, ao ser enriquecido nestes compostos, torna-se aromaticamente mais complexo, mais fino. No entanto, a maturação deve ser acompanhada muito de perto, por provas organolépticas frequentes, para se evitar que a madeira domine o vinho. O enriquecimento do vinho em substâncias aromáticas, não é o factor mais importante, senão, em minha opinião, quase que uma consequência, se bem que benéfica, quando doseada com o peso e medida certos.

Se o objectivo da maturação dos vinhos em barricas de carvalho for apenas o enriquecimento do seu aroma, para que esse fique marcado pelas notas de coco, baunilha e tostado, outros meios mais económicos existem para o fazer, como o uso de aduelas imersas, aparas ou cubos de madeira de carvalho. No entanto, desengane-se quem pensar que os resultados são iguais, porque falta algo fundamental, o oxigénio adicionado através das barricas, pelos poros da madeira, que tem um papel crucial neste processo. Poder-se-á então associar a microxigenação à adição de aparas. Nesse caso, já poderemos ter um resultado bastante mais satisfatório, mas mesmo assim incomparavelmente menos interessante do ponto de vista sensorial, nomeadamente no que diz respeito ao sabor do vinho. Os taninos nunca são tão redondos, o vinho nunca amacia tanto, nunca tem o mesmo volume gustativo, nem, do ponto de vista aromático é comparável.

Como conclusão, referir que a maturação dos vinhos tintos em barricas de carvalho se faz, fundamentalmente por questões de reacção entre compostos fenólicos e a sua polimerização, resultando vinhos com taninos dóceis e com sabor e volume gustativo mais ricos, mas também, para obter estabilidade da matéria corante, resultando vinhos que evidenciam uma cor mais intensa e jovem durante um maior período de tempo, que lhes permite um melhor e maior envelhecimento em garrafa e, também, mas não como factor mais importante, como por vezes pode parecer aos menos atentos, para obter uma riqueza aromática baseada nos aromas de madeira, que resulta da extracção de substâncias aromáticas nela existentes.
Uma chamada de atenção final, nem todos os vinhos podem ou devem ser envelhecidos em meias pipas de carvalho. É exigível que possuam uma boa estrutura geral, quer tanínica, quer aromática, que lhes permita suportar o aporte quer de substâncias fenólicas, quer aromáticas. E, não são raros os casos em que ao bebermos um vinho que maturou em barricas de carvalho, não conseguimos perceber mais nada que não aroma de madeira e taninos. O vinho foi dominado pela madeira, ou não tinha estrutura, ou o tipo de madeira e a queima escolhida não se adequavam correctamente a esse vinho.
Tratando-se de uma operação tão onerosa para o produtor, deveria este, usá-la sempre criteriosamente, ou seja, apenas nos vinhos que o permitam e justifiquem.
 

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